Opinião

Ostra feliz não faz pérola

Por Márcio Vaz (*)

“A ostra, para fazer uma pérola, precisa ter dentro de si um grão de areia que a faça sofrer. Sofrendo, a ostra diz para si mesma: “preciso envolver essa areia pontuda que me machuca, com uma esfera lisa que lhe tire as pontas…” Logo, ostras felizes não fazem pérolas… Será?

Esse texto é de Rubens Alves, em que ele faz uma analogia de que pessoas felizes não tem a necessidade de criar, pois não sentem uma dor que as façam querer sair do lugar. Não que eu queira fazer aqui, uma apologia ao sofrimento como único recurso para conseguirmos evoluir. Porém, infelizmente, o ser humano traz uma forte tendência de aprender muito mais pela dor do que pelo amor. 

Isso porque, uma pessoa que pisa numa areia morna pode internalizar a sensação como prazerosa ou suportável, mantendo-se no local. Agora, se a areia estiver fervendo, não existe a menor possibilidade de permanecermos estáticos. Ou seja, a nossa zona de conforto é relativa à dimensão da nossa dor. Resistimos até o ponto de a dor tornar-se insuportável, caso contrário o nosso medo de enfrentar o desconhecido ou o sentimento de incapacidade, faz com que nos adaptemos aos nossos desconfortos moderados. 

Embora sejamos aversos ao sofrimento, faz-se necessário compreender a dor como um instrumento natural que nos educa e desperta para o crescimento. Afinal, penso, logo existo, sendo os momentos introspectivos os mais reflexivos. Por mais que você seja um devoto da “felicidade plena”, entenda que ninguém vai passar por essa existência sem sentir dor. Portanto, de nada adianta fugir ou se esquivar de um problema, pois cedo ou tarde teremos que enfrentar situações difíceis, dolorosas e constrangedoras. Até mesmo porque, é humanamente impossível viver nesse mundo imperfeito e passar ileso ao sofrimento, sem perder algo ou alguém, ou sentir-se descontente. 

Nesse sentido, partindo do pressuposto de que não temos como escapar ao sofrimento, por que não ressignificá-lo? Tornando-o um forte aliado do nosso processo evolutivo. Para tanto, voltando ao exemplo da ostra, note que na maioria das vezes precisamos de um incomodo como um grão de areia para produzirmos nossas pérolas. Por isso, nem todo desconforto é descabido, pois para crescermos na vida precisamos mudar a nossa forma, trocar de casca ou de pele, romper a crisálida etc. 

Entretanto, eu não estou a dizer aqui, que você deva procurar sentir dor para evoluir. Pelo contrário, busque sempre a felicidade e o aprendizado pelo amor. Agora, quando o sofrimento for inevitável, lembre-se que uma uva precisa ser pisada para mudar de valor, pois, se assim não for, o seu cacho nunca terá o valor de uma taça de vinho, ou mesmo de uma garrafa, cujo valor é infinitamente superior. Porém, repito, o único meio da uva mudar de forma e valor é sendo pisada, mas nós não. 

Enfim, não somos uvas, nem ostras, uma vez que temos consciência e estamos munidos do livre arbítrio. No entanto, ampliamos as nossas possibilidades de transformação, quando tiramos proveito de qualquer situação. Até mesmo porque, aprendemos tanto com os erros, quanto com os acertos, sendo os nossos e dos outros. Agora, sem exceção, todos os “vencedores” tiveram que suportar e superar uma pisada lá atrás. Pararam de se vitimizar ao perceber o poder que a dor nos traz. 

Por isso, acalme o seu coração, porque tudo passa e cada aperto atual pode tornar o seu futuro mais brilhante. Afinal, não existe troféu sem corrida, prêmio sem esforço e vitória sem desafio. Desafie-se e saia da sua zona de conforto. Reinvente-se seja onde for. Só não aceite uma vidinha mais ou menos, pois você estará desperdiçando o seu bem mais valioso – Chamado TEMPO.

(*) Márcio Vaz é palestrante, psicólogo e escritor (http://www.marciovaz.net/blog)

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